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João Araújo
A viagem de Colombo, em 1492, destruiu a mitologia irracional da idade das trevas ao provar, empiricamente, que a terra é redonda e não plana como então se julgava.
Esta frase pode parecer razoável e até verdadeira a
muitas pessoas, e não obstante é objectivamente
falsa.
No livro em apreço Russell mostra, em suma, que não
foram os sábios da Idade Média a inventar ideias
mitológicas sobre a realidade, mas os sábios da Idade
Moderna a fabricar disparates sobre a Idade Média. Segundo
Russell, os sábios modernos acabaram mesmo por fazer aquilo que
criticaram duramente aos da Idade Média: pretender sujeitar a
realidade a certas ideias pré-concebidas.
No Capítulo I o autor começa por apresentar alguns textos contemporâneos onde se refere a alegada crença medieval na Terra plana e mostra que, ao contrário do que se pretende hoje, Colombo teve muitas dificuldades em convencer o rei da Espanha a patrocinar-lhe a viagem, não porque se duvidasse da esfericidade da Terra, mas porque se duvidava dos cálculos de Colombo. Russell explica como Colombo, por meio de uma série de erros, concluiu que entre as Canárias e o Japão havia 4.500Km de mar quando na realidade a distância é superior a 20.000Km. Segundo Russell, a primeira objecção levantada pela comissão que rejeitou os cálculos de Colombo foi precisamente esta: o Japão está demasiado longe para ser alcançado numa viagem para Oeste.
No Capítulo II Russell vai passando os argumentos, usados desde a antiguidade clássica até 1492, a favor da esfericidade da Terra. Os argumentos mais vulgares eram:
Ainda neste capítulo, o autor clarifica a questão dos antípodas. Alguns autores medievais diziam que os antípodas não poderiam ser habitados porque todos os homens são descendentes de Adão. Isto não implicava, na opinião desses autores, que não existissem antípodas; implicava somente que as regiões nos antípodas não poderiam ser habitadas uma vez que, pensavam eles, não havia forma de a descendência de Adão ter chegado. Lamentavelmente, esta distinção entre "inexistência de terra" e "inexistência de terra habitada" perdeu-se, pelo que alguns autores modernos entenderam os textos medievais como negando a esfericidade da Terra.
Finalmente, Russel refere alguns autores medievais que de facto defenderam a ideia da Terra plana. O mais importante deles foi Cosme Indicopleusto. Sobre este, não só Russell mostra que foi rebatido pelos seus contemporâneos como nunca teve nenhuma importância fora do mundo grego. A primeira tradução do seu livro para latim é de 1706. Em 1897 foi traduzido para inglês e os seus disparates passaram a ser considerados a imagem de marca da "Idade das Trevas". Neste capítulo, em suma, fica assente que o mito da Terra plana não tem nenhum fundamento.
Nos três capítulos seguintes Russell vai à procura da origem do mito. Seguindo de referência em referência, acaba por encontrar os dois inventores do mito da Terra plana: Antoine-Jean Letronne (1787-1848) e Washington Irving (1783-1859). O primeiro era um historiador conceituado que, entre outras coisas, atribuiu a Indicopleustos uma importância e influência que ele nunca teve, concluindo que todos na Idade Média acreditavam na Terra plana (isto apesar do próprio Letronne reconhecer que Indicopleustos tinha sido rebatido por autores do seu tempo). Dado o prestígio de Letronne, a sua conclusão foi aceite e citada por muitos historiadores posteriores que nunca se deram ao traalho de ir verificar as fontes primárias.
Washington Irving era um romancista que apresentava ficção como se fosse reconstituição histórica. Uma das cenas mais intensas e dramáticas da sua biografia de Cristovão Colombo é um interrogatório -sob a ameaça da Inquisição- em Salamanca, onde Colombo tenta provar a místicos irracionais a esfericidade da Terra, obtendo em resposta citações da Bíblia. A cena pode ser muito viva e impressionante mas refere um episódio que nunca teve lugar.
Antoine-Jean Letronne foi a origem erudita do mito da Terra plana; Washington Irving foi a origem populista. Os dois juntos influenciaram a maioria dos historiadores posteriores e só nos anos trinta do século XX o mito começou a ser questionado.
Russell faz ainda uma descrição detalhada de diversas conjunturas sociais, políticas e religiosas que permitiram a propagação do mito como forma de defender um conjunto de posições ideológicas.
Pela recolha de dados, pela análise dos documentos e pela forma categórica com que Russell destrói o mito da Terra plana, Inventing the Flat Earth é um livro excelente.
Sofre, porém, de uma pobre ordenação lógica. Russell, em vez de citar os autores que defendiam a esfericidade da Terra, cronologicamente, da antiguidade até Colombo, segue o caminho inverso: de Colombo para a antiguidade como quem está a meio de uma polémica e pretende "humilhar" o adversário: A esfericidade já era defendida em 1426, de facto já o era em 1357, até em 1283, e em 1210, e no século VI e …
O mesmo se passa nos capítulos sobre a origem e propagação do mito. Em vez de dizer, simplesmente, que antes de Letronne e Irving ninguém imputava à Idade Média a crença na Terra plana, seguindo depois a explicar como o mito foi popularizado (entre académicos e leigos), Russell parte da actualidade e vai provando que nenhum dos historiadores que aceita o mito foi às fontes primárias, antes se basearam em textos enfeudados a certas posições ideológicas do século XIX; e estes, por sua vez, tinham ido beber aos já citados Letronne e Irving. Uma vez mais dá a ideia de um texto de polémica, mais preocupado em rebater um adversário imaginário do que em listar e ordenar uma série de factos.
Esta desordem lógica torna o livro um pouco pesado de ler e obriga o leitor a fazer por si a arrumação dos documentos. No caso de, por exemplo, o leitor querer saber quem (e como) no século XII defendia a esfericidade da Terra, precisará -tão somente- de ler o livro todo.