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Rómulo de Carvalho

Henrique Leitão

Rómulo de Carvalho.
Actividades Científicas em Portugal no Século XVIII,
Évora, Universidade de Évora, 1996. xx + 840 págs.
ISBN: 972-9313-70-9.

Rómulo de Carvalho.
Colectânea de Estudos Históricos (1953-1994),
Évora, Universidade de Évora, 1997. xxi + 538 págs.
ISBN: 972-9313-87-3.

Rómulo de Carvalho (1906-1997) foi uma personalidade singular na vida cultural portuguesa das últimas décadas. Professor liceal de Física e Química, foi um dos últimos representantes de uma linhagem agora quase extinta - a dos grandes professores do Ensino Secundário. Como ele, em anos passados outros vultos eminentes da cultura nacional estiveram ligados ao ensino dos mais jovens e com isso marcaram indelevelmente muitas gerações de alunos. Foi também um dos mais importantes e mais bem sucedidos divulgadores de Ciência do nosso país. As suas obras de divulgação, sempre correctas e de excelente recorte literário, gozaram de grande fama e ainda hoje se lêem com deleite e proveito. Para o público em geral passará à história sobretudo pela belíssima poesia que escreveu, sob o pseudónimo de António Gedeão, e com a qual ganhou um justo lugar nas antologias. De um ponto de vista humano, a sua inteireza de carácter e honestidade intelectual sempre despertaram respeito e admiração. Prezou em modo extremo a sua indepêndencia intelectual e se, antes da Revolução de 1974, não prestou qualquer vassalagem ao regime então vigente, também depois não embarcou no percurso fácil dos que usaram as hesitações de jovem democracia para promover as suas carreiras pessoais.

Todas estas facetas humanas, intelectuais e artísticas seriam suficientes para lhe granjear um eminente lugar de destaque entre os seus contemporâneos. Mas a elas Rómulo de Carvalho juntou ainda uma outra que é a que aqui nos interessa. Foi o autor de extensos e aprofundados estudos sobre a História da Ciência em Portugal no século XVIII, vindo a ser considerado, com toda a justiça, a maior autoridade nacional sobre o tema. Pouco tempo antes de falecer os artigos que tinha publicado em vários periódicos foram compilados nestes dois grossos volumes que aqui consideramos. Sem exagero, estas duas obras podem ser consideradas como o melhor que a historiografia científica portuguesa até à data produziu sobre a Ciência nacional no século XVIII.

O volume Actividades Científicas em Portugal no século XVIII recolhe 14 estudos que publicou nas prestigiadas Memórias da Academia das Ciências de Lisboa, ou em outras publicações diversas dessa Academia. O que está sempre em estudo nestes trabalhos é o panorama científico, sobretudo no que diz respeito à astronomia, à física experimental e à construção de instrumentos científicos, em Portugal no século XVIII. Os temas são amplos e vão desde um estudo "Sobre a passagem do cometa de Halley em Portugal no ano de 1759", a uma análise sobre "O uso da língua latina na redacção de textos científicos portugueses", passando por um trabalho sobre "A Física na Reforma Pombalina", e vários estudos biográficos dos quais merecem especial referência os que se referem a João Jacinto de Magalhães (1772-1790). São também de especial interesse os vários trabalhos sobre a fundação da Academia das Ciências de Lisboa e a acção de um dos seus principais impulsionadores, o 2º duque de Lafões, D. João Carlos de Bragança. O volume encerra com uma "Bibliografia das Obras de Autores nacionais publicadas durante o século XX que se ocupam das actividades científica e técnica dos Portugueses nos séculos anteriores", onde se listam ``1352 títulos de obras publicadas em livro ou em revistas periódicas [...] com particular relevo para os Descobrimentos Náuticos e para a Medicina". Num país onde a historiografia científica está ainda muito longe da maturidade, o aparecimento de todo o tipo destes instrumentos de trabalho - inventários, bibliografias, dicionários biográficos, etc. - é sempre de saudar.

No volume Colectânea de Estudos Históricos (1953-1994), que traz na página de rosto o subtítulo "Cultura e actividades científicas em Portugal", recolhem-se 25 trabalhos que havia publicado em revistas diversas, algumas hoje em dia de difícil acesso. Neste volume agruparam-se os seus trabalhos em três áreas: 1. Temas e personalidades de ciência: Actividades e pensamento científico em Portugal; 2. O Ciclo das reformas Pombalinas; 3. Ciência Arte e Educação. No primeiro grupo encontram-se alguns trabalhos de extrema importância. Em particular os "Portugal nas Philosophical Transactions nos séculos XVII e XVIII", e "Relações científicas do Astrónomo Francês Joseph-Nicolas de L'Isle com Portugal" permitem aferir o intercâmbio - escasso, mas apesar de tudo, existente - de portugueses com os meios científicos da Europa. Os seus estudos sobre o período das reformas empreendidas pelo Marquês do Pombal (segundo grupo) são essencias para a compreensão desse complexo período. As apreciações sóbrias e eruditas de Rómulo de Carvalho acerca destes acontecimentos são contributos fundamentais para uma análise que ainda falta fazer. Finalmente, sob a designação de Ciência, Arte e Educação reunem-se trabalhos seus de pendor mais literário, mas nem por isso menos interessantes.

É importante assinalar que o que se recolhe nestes dois volumes não esgota a obra histórica de Rómulo de Carvalho. De fora ficam alguns dos seus trabalhos mais importantes, como por exemplo, a História do Gabinete de Física da Universidade de Coimbra, 1772-1790 (1978), ou a sua História do Ensino em Portugal (2ª ed., 1996), que são ainda hoje contribuições indispensáveis aos que se pretendam aproximar desses temas.

O trabalho de Rómulo de Carvalho caracteriza-se sempre por um cuidado extremo na identificação e no estudo da documentação primária. A sua investigação dos Arquivos é exaustiva. O autor inclui habitualmente extensos apêndices documentais que são hoje em dia auxiliares preciosos para os que tratam questões semelhantes. Os pormenores biográficos das personalidades referidas são estudados com invulgar cuidado.

Mas mesmo numa obra de tal importância há, como é natural, alguns reparos a fazer. Aquela que foi a maior virtude de Rómulo de Carvalho - o desejo apaixonado de conhecer a história científica do seu país - foi também a origem das principais limitações da sua obra. Muitas vezes as descrições da realidade portuguesa quase que não levam em conta o contexto intelectual noutras nações. Uma outra deficiência tem possivelmente as raízes no seu percurso pessoal. O seu trabalho foi sempre desenvolvido fora dos meios académicos e universitários. Se por um lado isto o torna ainda mais admirável, por outro lado torna-o por vezes superficial. Em particular, é de assinalar o seu desconhecimento de alguma da melhor historiografia internacional, muitas vezes de directa relevância para o tema tratado. Se tivermos em consideração o que a historiografia científica internacional evoluiu nos últimos quarenta anos, não deixa de ser surpreendente verificar como pouco ou nada disso transparece nos seus trabalhos. As suas opiniões sobre o aristotelismo renascentista são superficiais e parecem ignorar tudo o que, pelo menos desde os estudos fundamentais de Charles Schmitt, aprendemos sobre o assunto. A sua abordagem do cartesianismo padece também de óbvias limitações. E, apesar das suas apreciações equilibradas sobre o papel da Companhia de Jesus, as suas referências à actividade científica dos jesuítas portugueses necessitam de ser actualizadas e aprofundadas.

Tudo somado, e mesmo levando em conta as críticas que se possam fazer, estes dois volumes são aquisições essenciais para os que se interessem pela história científica de Portugal no século XVIII. Os editores, ao reunirem boa parte da produção de Rómulo de Carvalho, prestaram não só a mais justa homenagem ao historiador de ciência, mas realizaram também um excelente serviço à comunidade de estudiosos.