A História da Ciência é uma disciplina intelectual particularmente
exigente. É, como já algumas vezes foi definida, uma "investigation
of difficult things". Praticá-la requer o domínio seguro de um ofício,
uma
craftsmanship, cuja aprendizagem é difícil e cuja mestria
só se vai conseguindo ao longo de toda uma vida de trabalho e estudo. Quem se
queira iniciar nestes estudos deve, antes de mais nada, preocupar-se
em adquirir estas capacidades técnicas, que nenhuma formação
tradicional só por si proporciona. Para auxílio dos que se iniciam, e
tendo em mente sobretudo os alunos que pretendam dedicar-se à História
da Ciência a um nível pós-graduado, deixam-se aqui alguns conselhos.
- Antes de mais nada, parece muito difícil (embora alguns, raros, o
tenham conseguido) entender qualquer problema de História da Ciência
sem um domínio muito seguro dos aspectos científicos em questão.
Conhecimentos de Matemática, Física e Biologia pelo menos ao nível dos
primeiros anos de uma licenciatura científica são quase sempre
indispensáveis. Os que têm, ou tiveram, alguma participação em trabalho
de investigação científica, mesmo medíocre, terão a grande vantagem da
sua familiaridade com um tema científico concreto, e de conhecer por
experiência o modo mental, as atitudes, e o processo da criação
científica. É sem dúvida uma vantagem, mas está muito longe de ser
suficiente.
- Em muitos casos o aluno só ganhará algum entendimento
profundo se tentar repetir os procedimentos científicos que são o seu
objecto de estudo histórico. Um aluno que nunca se debateu com o
problema de estimar e controlar os erros numa medição
científica dificilmente entenderá qualquer texto de ciência
experimental, ou qualquer questão de história dos instrumentos
científicos. Um aluno que nunca demonstrou, por si próprio, algum
resultado matemático nunca compreenderá o fascínio e a exuberância que
essa actividade encerra. Um aluno que nunca presenciou uma dissecação
dificilmente entenderá a importância de Vesálio.
- É também muito difícil, se não de todo impossível, qualquer
entendimento da história científica sem uma considerável bagagem de
conhecimentos históricos, cujo volume e profundidade transcendem em muito o que
se pode aprender numa licenciatura universitária nos dias de hoje. Em
particular, os aspectos de história das ideias e das instituições
educativas e de cultura devem ser conhecidos em grande profundidade.
Mas temas aparentemente tão diversos, como a história eclesiástica ou
a história militar, podem vir a revelar-se absolutamente centrais.
- Na Europa, e certamente em Portugal, a vida de cultura esteve
durante
tantos séculos tão intimamente ligada à vida do Cristianismo que é
essencial uma sólida formação em História da Igreja e consideráveis
conhecimentos de Filosofia e Teologia cristãs. Todos
os debates em torno de questões biológicas tiveram importantes
implicações filosóficas e religiosas, e é impossível qualquer
compreensão das polémicas relacionadas com o atomismo, e a sua difusão
na Europa da Idade Moderna, por quem não entenda a noção cristã de
transubstanciação e a natureza da Eucaristia.
- O aluno que não esteja suficientemente familiarizado com a
mitologia grega, a história do império romano e os relatos bíblicos,
nunca entenderá o mundo mental de qualquer homem culto, educado na
Europa até ao século XX. E um desconhecimento da arte, da música e da
literatura do período em estudo pode muito facilmente conduzir a
incompreensões e equívocos infelizes.
- O estudo de alguns temas determinados poderá exigir ao aluno profundas
incursões em assuntos que são estranhos, ou mesmo antagónicos, à
Ciência dos nossos dias. Não há qualquer compreensão possível da
História da Astronomia sem conhecimentos de astrologia, nem da
História da Química sem conhecimentos de alquimia. O aluno deve estar
sempre preparado para estas incursões, por mais obscuros e
complexos que sejam os temas que se veja forçado a estudar.
- Algumas das denominadas 'disciplinas auxiliares da História' são de
uma importância crucial. Os conhecimentos de Bibliofilia (e, mais
geralmente, de História do Livro) são particularmente importantes, e em
muitos casos os conhecimentos de Paleografia serão indispensáveis.
- As exigências linguísticas são também bastante grandes. Para além de
uma indispensável fluência em inglês e francês, o aluno que não domine
igualmente o espanhol, o italiano e o alemão, apresentará sempre
limitações dificilmente ultrapassáveis. Para qualquer assunto de
cultura erudita europeia até ao século XIX, o
conhecimento de Latim é absolutamente indispensável e o seu
desconhecimento deveria ser eliminatório. Evidentemente, estudos
específicos (de ciência árabe ou chinesa, por exemplo), requerem
capacidades linguísticas fora do normal.
- Os que se iniciam nunca deverão eleger como tema de investigação uma
grande figura científica, uma instituição de grande influência, ou um
debate central à história da Ciência. Propor a um aluno um estudo da
mecânica de Galileu, da história da Royal Society, ou das
controvérsias sobre os fundamentos da matemática é um convite aberto ao
disparate.
- Um conhecimento da melhor literatura secundária é essencial, mas o
aluno deve estar bem prevenido dos riscos envolvidos. O estudante que se
inicia deve ter sempre presente que é francamente preferível produzir
um trabalho modesto e mesmo incompleto sobre algum aspecto restrito,
do que repetir as apreciações gerais da historiografia (que, aliás,
qualquer profissional do ofício já conhecerá), ou, pior ainda,
dar roupa nova a velhos erros historiográficos.
- As amplas sínteses históricas bem como as especulações teóricas
e as análises conceptuais
estão totalmente vedadas ao aluno. Este tipo de trabalhos estão
reservados não apenas à idade madura, mas além disso exigem talentos
muito especiais e pouco comuns. São raros os historiadores que conseguem
abarcar períodos seculares com um mínimo de segurança, coerência e
lucidez, e têm-se destruído muitas florestas para produzir o papel de
livros que não acrescentaram qualquer esclarecimento.
- Por razões semelhantes é fútil e prejudicial pedir a um aluno com
poucos anos de ofício que se pronuncie sobre as querelas que
parecem afligir há décadas a profissão: continuismo/descontinuismo;
internalismo/externalismo; construtivismo, etc.
Na maior parte dos casos estas polémicas são tratadas insipidamente e
com total inutilidade. Quando não, são extremamente complexas. Em
qualquer dos casos, não se recomendam aos recém-chegados.
- Em História da Ciência são pecados capitais o anacronismo, a
apreciação vaga, o desprezo pelos materiais primários, e os
julgamentos sumários sobre períodos largos. A insistência em
pretender moralizar sobre figuras do passado, obsessivamente
escolhendo os "bons" e os "maus", e trazendo os mortos aos
tribunais dos vivos, é uma grave doença intelectual que revela uma
mente panfletária, completamente imprópria para qualquer estudo
histórico sério. É obrigação moral de um professor recomendar um
outro modo de vida ao aluno que incorrer repetidamente nestas faltas.
- A linguagem pouco clara, atafulhada de jargão pseudo-intelectual,
e buscando a "problematização" como um objecto querido, revela quase
sempre presunção e ignorância, e até, em alguns casos,
deterioração mental. A realidade histórica é já de si suficientemente
complicada, e torná-la ainda mais opaca é prestar um mau serviço.
- A humildade é, em História da Ciência, uma virtude tão indispensável
como em qualquer outro aspecto da vida. O aluno deve ter sempre em
atenção que, mesmo dando como seguro que há sentido em falar de
objectividade histórica, o passado é sempre de acesso muito difícil e
a sua apreciação muito problemática. Quando bem informada, a moderação
nos juízos é sempre sinal de compreensão.
- Finalmente, é uma obrigação de justiça que o professor recorde
aos seus alunos que raríssimos foram os historiadores de ciência que
alcançaram a fama, e nenhum a riqueza. O aluno que tenha outra
motivação interior que não seja o desejo de conhecer e compreender
melhor o passado não deve seguir esta difícil ocupação.