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Henrique Leitão
Anotações dispersas, comentários, reflexões breves, provocações. Como frequentemente sucede nos documentos, também estas páginas têm as suas marginalia.
Estamos ainda muito mal informados no que se refere à divulgação das ideias e das obras de Newton em Portugal. A rotineira menção a Jacob de Castro Sarmento e à sua Teórica Verdadeira das Marés, de 1737, é muito insuficiente para compreender o que quer que seja. Aliás, o conhecimento das concepções newtonianas em Portugal começou certamente algumas décadas antes.
E, no entanto, nem sequer podemos dizer que o caminho não esteja já balizado. Numa excelente nota incluída na Enciclopédia Verbo, no verbete "Newton [em Portugal]", o Pe. João Pereira Gomes deixou um manancial de pistas que nunca foram seguidas convenientemente. Mais tarde, Rómulo de Carvalho, no seu "A aceitação em Portugal da filosofia newtoniana", retomou a questão em traços largos. Mas apesar destas duas contribuições, tem de reconhecer-se que um estudo minimamente cuidado nunca foi empreendido.
Para lá de todos os debates, no âmago da questão do Newtonianismo em Portugal está uma pergunta essencial que tem de ser resolvida: Estas ideias circularam apenas entre curiosos, num discurso semi-popular, ou foram compreendidas profundamente pelos especialistas? Dizendo de outra forma: No final do século XVII e princípios do séc. XVIII, havia em Portugal algum homem capaz de entender os Principia? Quem?
Nestes anos de domínio completo da língua inglesa como idioma da ciência e da cultura, ficou evidente o desastre cultural que se abateu sobre o nosso país com o abandono do Latim, em finais do século XVIII. À periferia geográfica, Portugal adicionou a periferia linguística.
O abandono do Latim como língua-franca dos eruditos, após a acção política de Pombal, remeteu à mais completa irrelevância a (pouca) produção científica dos nossos compatriotas de épocas passadas. Veja-se o dramático caso de Anastácio da Cunha que, disposto a escrever uma ambiciosa obra matemática, o faz... em português. Evidentemente, quem o devia ler, não leu.
Para além de notarmos o provincianismo e os preconceitos que presidiram a estas escolhas na década de 70 do século XVIII, o mais chocante desta história é que a exaltação do vernáculo como língua para a cultura erudita em Portugal, foi completamente extemporânea. Cingindo-nos apenas ao caso da matemática, observa-se que, com a excepção da França, quase todos os europeus continuarão a eleger o Latim para a publicação das suas obras. Assim o fizeram Euler, os Bernoulli, Gauss, durante todo o século XVIII e princípios do XIX. Nos anos 40 do século XIX, Jacobi ainda publica em Latim, e mesmo em 1876, quando o alemão e o francês dominavam, Riemann ainda publica em Latim.
No fundo, na base da glorificação do vernáculo como veículo da produção científica (no século XVIII como hoje) estão duas noções erradas. Uma, a que pensa que isso põe em perigo a sobrevivência do idioma-pátrio. Não põe, pelo menos não põe necessariamente. O que assegura a sobrevivência de um idioma são, como agora se diz, os conteúdos. Produzir lixo em português é tornar a língua irrelevante, por mais piedosas que sejam as intenções. Mas o segundo erro é talvez ainda mais subtil: É a ideia de que a produção científica criativa, de alta qualidade, exige ou depende da difusão de conceitos científicos num âmbito popular. Não existe qualquer evidência histórica para fundamentar a ideia de que a "cultura científica" da sociedade, em sentido lato, venha a influenciar determinantemente a produção científica. A difusão das novidades científicas em círculos populares é uma tarefa que serve muitos e nobres propósitos, (corporativos, ideológicos, financeiros, de mera distracção) mas não o da melhoria da ciência original que se produz.
A ciência criativa é um campo difícil, reservado a muito poucos, com talentos raros e muito particulares. Pouco importa que esses homens decidam comunicar entre si num idioma que não é compreendido pelas massas. A desgraça é introduzir, por preconceito ou provincianismo, alguma dificuldade na comunicação entre os cientistas.
O mais distraído e esporádico contacto com a investigação dos nossos dias permite algumas observações simples: Os resultados da investigação científica são apresentados em documentos muito próprios, os papers, que circulam em canais bem determinados, entre os pares do mesmo ofício. A produção de livros é quase sempre um segundo momento na divulgação de conhecimentos, e na esmagadora maioria dos casos é feita com intuitos pedagógicos. Por isso, os livros de texto são tardios em relação à descoberta de qualquer novidade e além disso apresentam invariavelmente uma visão depurada, tanto quanto possível consensual, habitualmente simplificada e orientada pedagogicamente de ideias, experiências ou teorias.
De forma muito análoga em séculos anteriores. As novidades científicas, os temas polémicos, os debates técnicos encontram-se, antes de serem publicados, em documentação manuscrita. Muitas vezes, nunca chegaram a conhecer a consagração de serem impressos. Sem muita impropriedade pode dizer-se que os manuscritos de épocas passadas (textos pessoais, correspondência, notas de aula, etc.) são os equivalentes dos papers dos dias de hoje.
Isto quer dizer que os que desejem investigar a actividade científica de épocas passadas nos seus momentos mais vivos, mais polémicos e mais criativos não têm outra opção senão mergulhar decididamente no mundo silencioso e difícil dos arquivos. Quer dizer também que qualquer descrição da concepção, transmissão, ou difusão de noções científicas a partir de materiais impressos esta à partida a prescindir dos momentos mais técnicos e criativos da actividade científica. E por isso, são muito arriscadas, e quase sempre erróneas, todas as considerações que se fizeram sobre a actividade científica, a partir do exame de documentação impressa.